No-Vox

O muro de Schengen colonisa os nossos espíritos

quarta-feira 12 de Dezembro de 2007

Declaraço No Vox, Reunião conclusiva, cimeira União Europeia/África alternativa, Lisboa, 9/12/2007

A rede No Vox foi criada em Florença durante o primeiro Forum Social Europeu em 2002, para interpelar os organisadores sobre a participação e tomada em conta das análises e alternativas propostas pelos movimentos mais discriminados. Foi em Janeiro de 2003, durante o 3ro Forum Social Mundial em Porto Alegre, que a rede No Vox se internacionalizou. Depois, este movimento estendeu-se à India, ao Mali e no último Forum Social Mundial em 2007 apoiou movimentos de base no Kenya cuja participação foi impossibilitada pelo comité local de organização- isto após as dificuldades encontradas no Brazil, na India e no Mali.

Felicitando-se da organisação desta cimeira alternativa em condições materiais difíceis, a rede No Vox deplora que alguns dos nossos camaradas africanos, ausentes hoje, se tenham deparado, durante a fase de preparação, ao mesmo paternalismo que os movimentos de sem na Europa tiveram e têm de se confrontar desde há vários anos.

A sua autonomia de decisão não foi respeitada. Foram praticamente transformados em mendigos para obter os apoios necessários aos seus pedidos de visto. Contando com as suas próprias forças, eles reuniram e gastaram fundos a perda, foram ameaçados de banimento do espaço Schengen pelo ministério português depois da decisão insensata e unilateral do comité organisador em Lisboa de retirar o seu apoio aos pedidos de visto já satisfeitos. Rapidamente, tornou-se impossivel para a No-Vox,que apoiava os pedidos de visto, de saber se estávamos a comunicar com a sociedade civil ou com o ministério do qual ouviamos a voz sob forma de recusas arbitrárias, de exigencias nunca fundadas no mínimo elemento de explicação.

No ponto em que estamos, torna-se difícil de condenar o próprio ministério pela sua recusa de vistos depois de lhe ter fornecido os pretextos que nem o próprio ousava sonhar para justificá-la. Não duvidamos que as autoridades não apreciem que militantes de base africanos tenham reuniões políticas com movimentos europeus mas talvez elas não sejam as únicas.

Nós sabiamos que o caminho que leva a verdadeiras solidariedades internacionais é longo, dificil e talvez impossível.Confrontamos-nos com a terrível violencia dos Estados que nós combatemos com as poucas armas de que dispomos.

Mas o que as últimas semanas nos ensinaram, durante o processo de organização do Forum de Lisboa, é que infelizmente o muro de Schengen colonisa os nossos espíritos. Ao ponto até de se suspeitar militantes, que levam a cabo duras lutas locais, de imigração ilegal. Schengen faz com que a gente se transforme em polícia das fronteiras até com os nossos próprios amigos.

Vindo após o FSM da Nairobia, e de mais outras atitudes intoleraveis,é uma muito má noticia, camaradas!

A No Vox continuará o seu combate para que as vozes dos despossuídos sejam ouvidas e que os seus movimentos sejam plenamente respeitados,inclusivé à esquerda, inclusivé num movimento social global. E nós sabemos que esse combate será ainda mais dificil para os camaradas do "sul", e particularmente para os nossos companheiros africanos.

Confrontados com a opressão e a precaridade dos dois lados do muro, a nossa aliança é mais do que nunca necessária. Temos os mesmos inimigos, mas também os mesmos amigos que nos tentam controlar. Com falta de tudo excepto a nossa determinação e a nossa criatividade,com a nossa capacidade de auto-organisação, é obvio que temos pouco tempo e recursos a consacrar na criação de solidariedades na escala global.

Reciprocamente, é tão fácil de organisar uma conferência internacional, acolhendo um só delegado por país, em geral sempre os mesmos, sem verdadeiras relações nem compreenção dos movimentos locais e dos povos.

Assim poderemos cair na tentação, dos dois lados do muro, de dizer: Stop! É demasiado dificil. É demasiado caro. Fonte de decepções. Uma perda de demasiada energia que deve ser consacrada às nossa lutas de terreno. Demasiadas traíções previsíveis metem os nossos movimentos em perigo.

Mas nós não desistiremos. Já provámos as promessas de verdadeiras solidariedades à escala global e seja quais forem as dificuldades nós continuaremos a luta. Não deixemos o muro de Schengen colonisar os nossos espiritos. Nós atacaremos dos dois lados, incluisivé em nós próprios e de seja que lado do muro nós estivermos.

De imediato é evidente que a No Vox não falará em nome de camaradas africanos dos quais a liberdade de circulação foi assim violentamente negada. A rede No Vox protesta energicamente contra a atitude das autoridades portuguesas. Pedimos a todos os movimentos presentes no Forum de manter vigilancia para que os nossos camaradas não sejam inscritos numa lista negra por causa de militantismo politico sob justificação de lutta contra imigração. No momento em que nós escrevemos, receamos com horror uma tal perspectiva. Pusemos militantes em perigo e a nossa solidariedade e determinação deverão ser eficazes. Esses militantes não devem pagar pelos nossos erros ao preço da exclusão do espaço Schengen.

Apelamos igualmente todos os movimentos sociais e a sociedade civil a tomar plenamente consciência de que nós reproduzimos naturalmente o imperialismo do Norte nas nossas relações com os movimentos do Sul. Isto deve ser uma evidência para cada um, incluindo os que estão mais dedicados na construção de solidariedades globais. Se nós não mudarmos isto, então não há esperança.

« Mudar o mundo começa por se mudar a si mesmo ».


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